Juh.ninho – Just do it…


Textos By Decco

 

O QUEBRA NOZES 

Vilmo tinha raiva do mundo. Sentia que as pessoas deviam algo para ele, não sabia o que era, mas por dentro a ira o corroia, tudo era medíocre, tedioso, insuportavelmente lento e preguiçoso. Tinha uma vontade imensa de se vingar, não perdoava nada nem ninguém, nem a si mesmo. Raiva. Nada do que fazia parecia prestar para alguma coisa, ele era seu mais cruel e implacável crítico e verdugo.

             Diariamente arrancava seus músculos dos ossos com os dentes e os achava feios.

              Um dia de total desespero e desesperança se cansou. Sentado no sofá, passava na tv Pinky e o Cérebro. Dali tirou uma idéia que jamais seria apagada. A sua vingança seria a pior que já havia sido feita. Iria se matar.

             Sim, iria tirar a própria vida e sair daquele mundinho pequeno. Começou a achar que já tinha feito tudo o que tinha que fazer, que já tinha visto tudo o que tinha que ver, ouvido tudo, comido quem queria comer, dado pra quem queria dar, xingado quem queria xingar, batido em quem queria bater. Nada dali pra frente valeria o esforço de se levantar da cama e sentir raiva do travesseiro, do despertador, do chefe da familia, do sabonete..

             Vilmo estava cansado, é certo, mas aquela idéia o dava energia pra continuar. E começou a tecer seu plano de saída. Queria deixar em todos o sentimento de culpa, queria derramar em todos os corações o líquido ácido do ressentimento, das coisas deixadas por fazer, das palavras não ditas, dos toques nunca efetuados. Queria chamar a todos de assassinos. Dele.

             Deitado na cama começou a desenhar as engrenagens. Uma pessoa sente falta de outra quando essa outra ocupa algum espaço. Como faria pra que, pelo menos na época em que fosse realmente se matar, ocupasse tanto espaço quanto possível nas pessoas que o cercam? Era difícil, trabalhoso, tomaria algum tempo. O mais difícil seria no trabalho.

             Sim, não pensem vocês que Vilmo só queria atingir familiares e amigos, não, queria o maior número de pessoas querendo que ele voltasse. Em casa seria fácil. É fácil fazer pai e mãe se sentirem culpados; os irmãos talvez dessem um pouco mais de trabalho, mas era fácil também.

              Levantou-se da cama num pulo. Começou.

              Já ao acordar tomou banho, lavou os cabelos com cuidado, queria estar lindo pro Grande Dia e começou a investir na aparência. Escolheu uma roupa bonita, aquelas de sair, tomou seu café em silêncio com seu pai e seu irmão, até começou a puxar algum assunto, mas as palavras caíam no chão, junto com as migalhas do biscoito, se é silêncio que eles querem, é isso que vão ter. A indiferença familiar era o que o deixava com mais raiva 

            No trabalho as coisas não eram muito diferentes, mas lá ele teria que começar a ser mais notado para ser mais lamentado depois. Esforçava-se muito para ser simpático, e não apático, como sempre fora. Levava café pros seus colegas de escritório, pegava coisas a mais pra fazer, deixou tanta gente quanto possível dependendo dele.

              Comprou um celular, que não tinha. Isso acontecia no fim de outubro e planejava se matar em meados de dezembro, não podia deixar passar a data principal, quando as pessoas se sentem mais culpadas das coisas, o Natal.

              Seu aniversário passou e ele não comentou nada, ninguém se lembrou a não ser a empregada da sua avó. Deixou passar, não quis nem chorar no seu quarto escuro. Não, o que é deles estava guardado.

              Em casa as coisas iam de acordo com o plano. Sabia dos horários do pai e sempre começava a falar de si mesmo quando ele estava de saída, ou quando lia o seu jornal, ou via seu programa na televisão.

              A cada “peraí, depois a gente conversa” ele se sentia mais e mais contente. Chegava por trás da mãe, quando ela estava lavando louça, e tentava lhe dar um beijo, mas ela o afastava, e ele gostava. Tentou ser carinhoso com seus irmãos cheios de espinhos e só recebia safanões e mais desprezo.

             Como isso deixava Vilmo no mais puro êxtase! Vocês vão se arrepender de cada palavra não dita, de cada gesto retaliado, de cada grito de desprezo, ah se vão!

              Seu corpo começava a tomar um formato mais desejável por causa da musculação e era mais notado pelos colegas.

             Cortou o cabelo, fazia tratamento de pele, comprou roupas novas e mudou de estilo, agora mais clássico e mais seguro. Para nós, que estávamos de fora, até parecia que a idéia da vingança começava a se apagar. Sorria mais, pois tratou e branqueou os dentes. Ia ao cinema, lia jornal e ouvia música para sua conversa ser interessante. 

            E até em casa as coisas começaram a melhorar, seus pais o viam se interessar mais pela vida (quanta ironia!) e o respeitavam, chegando até a se esforçarem para ouvi-lo de vem em quando. 

             Pronto, estava tudo armado do jeito que queria para que o Grande Dia chegasse.

              Sábado. Chegou em casa à noite, depois de ter comido Edno a tarde inteira, estava com o vidro de calmantes na mão. No jantar, nada se disse, apenas os olhares evitando os outros, o desconforto, a inadequação de todos que se achavam ali por engano. Vilmo ligou pro seu chefe, pros colegas de sala e até pro estagiário que o odiava mais que tudo e fez as pazes com ele. Foi à cozinha e trouxe um copo grande cheio de refrigerante. 

            Tomou banho, fez a barba, vestiu-se como que para sair. Sentado na beira da cama Vilmo se via tomando os comprimidos brancos um a um. Tomou todos e ainda bateu o fundo do vidro pra cair até o último grão da substância narcótica. Ligou a televisão na novela, deitou-se na cama, arrumando o cabelo no travesseiro e a camisa para não ficar enrugada demais. E fechou os olhos pruma vida cheia de rancor, de pedras gigantescas tapando sua visão, de areia desértica e de gelo polar. Uma vida onde todas as flores que colheu lhe ofenderam os dedos com seus espinhos. Morreu para dar vida a si mesmo, dar vida a um ser que viveria na lembrança, que seria aquele que eu queria ter abraçado, aquele que eu podia ter ouvido, que eu podia ter aconselhado, que podia ter pedido ajuda, que eu podia ter ajudado, beijado, amado…

(by Decco)

EXERCICIO LITERARIO

GOSTO DE GRITOS,
GEMIDOS E ARFARES,
GOSTO DE QUANDO VOCE ATIRA OS BRAÇOS PARA TRAS
E ARQUEIA AS COSTAS.
GOSTO DE SUSPIRAR E TRANSPIRAR, ENQUANTO TE POSSUO,
GOSTO DE DENTADAS E ARRANHOES, TE AGARRAR COM FORÇA.
GOSTO DE IR AO CEU E VER AS ESTRELAS EM SEUS OLHOS
GOSTO DE QUANDO VC SUCUMBI EM MEUS BRAÇOS, DE QUANDO FICAMOS SUADOS E MOLHADOS…
GOSTO DENTRO E FORA DE TI.
ENROLADOS NUMA TEIA…
GOSTO  DE QUANDO MORREMOS TODOS OS DIAS.

(by Decco)

ANONIMATO 

Trajava sempre de negro, não para dar nas vistas, mas para se fundir com o meio da multidão, como um camaleão, e passar despercebida em qualquer lugar por onde passasse.Tinha uma postura discreta, suave, quase não notava a sua presença, a não ser quando fazia cantar as suas cordas vocais com aquela voz de mel.Era sempre tão simpática, correta e calma, que não deixava qualquer impressão nas pessoas que a rodeavam. Os colegas de trabalho não sabiam quem ela era, os vizinhos julgavam a sua casa desabitada, a família recordava-se vagamente duma presença feminina algures na sua árvore genealógica, mas que tinha partido para parte incerta.Saía todos os dias para o trabalho, tomava o café na lanchonete da esquina, ia de metro onde se fundia com a massa anónima, igual todas as manhãs.Desempenhava as suas funções com extrema eficiência, sempre por trás dum monitor, onde se correspondia com outros números e nomes fictícios de outras empresas gigantes.Voltava para casa ao fim da tarde, fazia algumas compras no supermercado mais próximo, comprava embalagens individuais, sem cor cheiro e sabor, ideias para vidas saudáveis e monótonas.Cozinhava as comidas congeladas no seu microondas, e sentava-se com o seu tabuleiro individual no colo, no sofá da sala, comprado na loja da moda, assistindo a filmes e séries onde as heroínas viviam vidas de sonho, cheias de amor, sexo e glamour.À meia-noite levantava-se, vestia uma lingerie de renda preta, um vestido sexy coleante.Ligava o computador, a internet e a sua página pessoal.Tornava-se a mulher sexy que sempre ambicionara ser, despia-se lenta e sensualmente em frente à web cam para dezenas de teclados anónimos e cinzentos assim como ela, que partilhavam o sonho duma vida a dois.

(by Decco)

Um Silêncio Eterno.

Ao fundo da escada, mesmo junto ao elevador que não funcionava, vinha ela.
Ele não a viu, mas podia ouvir ecoar pelas escadas o mórbido barulho do sistema de suspenção da muleta. Gasta.
A muleta, não ela. Bem, ela também. Gasta.
Aquele velho edifício (3 andares) com frias escadas de pedra polida pelas décadas de sapatos tinha uma acústica única. As lâmpadas há muito que não eram trocadas e, as poucas que ainda existiam, teimavam em pintar de amarelo tudo o que iluminavam. E não é aquele amarelo alegre.
Não, nada disso. Amarelo fúnebre.
Tão funebre como todo o edifício. Quem vinha ali pela primeira vez podia sentir o toque das sombras. Como elas lhe lambiam os corpos em danças invisíveis.
Mortuárias.
O eco da muleta aproximava-se. Agora ele podia também ouvir os tacões dos sapatos ortopédicos. A sua vontade era esfaquea-la assim que ela entrasse por aquela porta. Adoraria sentir o sangue quente a escorrer-lhe para os braços.
Nunca iria lavar aquela roupa manchada do sangue do seu extâse.
Sabia exatamente como ela iria reagir a isso. Sabia qual seria a sua expressão facial, a cara surpresa, como seriam os seus gritos…
Sabia tudo, pois essa imagem já corria pelos seus pensamentos há muito tempo. Era informação que estava aglomerada já ao seu instinto de sobrevivência.
Como reagir num tremor de terra, como fazer em caso de incêndio, como a matar… Sorriu!
A campaínha toca. “Ela tem as chaves, porque é que faz sempre isto”. Respirou fundo. Antes de ir à porta, passou pela janela e olhou a rua que ali em baixo descansava.
Velha e suja. A rua, não ela. Bem, ela talvez um pouco.
Respirou novamente fundo, tão fundo quanto podia. Antes de abrir a porta fecha os olhos, constrói o sorriso. Abre a porta. Beija-a nos lábios.
Ela entra. Ficam em silêncio. Horas de silêncio. O silêncio da cumplicidade.
Décadas de cumplicidade. Décadas de silêncio.

 by Decco

BALADAS……

Saia muitas vezes para dançar com amigos,mas na maioria das noites ia sozinhoNão ia com nenhum intuito em especial, para além de dançar.Mas adorava mexer o corpo ao ritmo de música bem alta, rodeada duma massa de gente toda diferente, que se toca e se movimenta ao mesmo ritmo. Por vezes bebia bastante, para anestesiar amente, libertar o corpo, esquecer um pouco a vida que lhe tinha distribuido e que não o fazia feliz.De vez enquando partilhava a solidão com outro amante do ritmo, solitário como ele. Dançavam os dois na pista, embalados pela musica alta, que penetrava a pele e sossegava o corpo.Beijavam-se, tocavam-se, mas permaneciam isolados, defendidos pelo fundo de um copo sempre cheio.Numa noite deixou de aguentar.

O coração doía-lhe, a alma piscava-lhe de ansiedade, o corpo pedia uma atenção que ele nao se podia permitir dar.

Nem a sucessão de copos cheios que já lhe tinham passado pela mão, a uma velocidade assustadora pareciam acalmar a ansia que o inundava, e a musica aos berros já nao abafava a voz que gritava dentro da sua cabeça a infelicidade.

A dança frenética que costumava ser um balsamo, era agora dolorosa. Olhou em volta sem saber o que fazer.

No chão amontoavam-se pedaços de vidro, resto de copos que tinha escorregados de outras mãos, e que dificultavam agora os seus passos.Baixou-se vagarosamente, com movimentos lentos impulsionados pelo álcool, e agarrou o pedaço de vidro mais colorido. Acariciou a palma das maos com ele, os pulsos, cada dedo amaciado pela bebida, e pelos inúmeros cremes com que se mimava todas as manhas.

Cortou a carne mole, como se não lhe pertencesse, sentiu o sangue escorrer devagar, quente, e a dor que lhe perfurava os dedos abafava a dor do coração.

E dançou o restou da noite, tingido de vermelho. com a dor que lhe invadia a alma espelhada nas suas mãos, e um sorriso de alienação a coroar-lhe o rosto, ao som do balão mágico.

 by Decco

Filosofia de Vida do Decco

“Não espere sorrir…para ser gentil com alguem. Não a queda…para lembrar-se do conselho. Não espere a enfermidade…para perceber o quanto é frágil a vida. Não espere pessoas perfeitas…para então se apaixonar. Não espere a mágoa…para pedir perdão. Não espere a separação…para buscar a reconciliação. Não espere a dor..para acreditar em oração. Não espere elogios…para acreditar em sí mesmo. Não espere que o outro tome a iniciativa…se foi você o culpado. Não espere o eu te amo…para dizer eu tambem. Não espere o dia da sua morte…para começar a amar a vida!….”

by Decco


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