Junior

Autor e ilustrados da história de José em Sinais. Desenhista, caricaturista, Chargista, enfim… tudo que envolva arte. Publicitário e escritor desde os 10 anos de idade com seu primo (de mesmo nome). Escreviam contos mirabolantes de acontecimentos momentâneos da vida de cada um.
Enfim, Junior cresceu e fez seu primeiro livro. Somente para surdos e independente de palavras. Os próprios desenhos contam a história com libras.
Decidiu escrever seu segundo livro: Os Diários de Maybell. E publica semanalmente um capítulo da história até que ela chege ao desfecho.
Você não vai perder essa história. Vai?
SINOPSE

Aqui vai o perfil do livro que logo mais eu irei lançar aqui no meu Blog e também no portal único e exclusivo para ele.
Título: Os Diários de Maybell.
Gênero: Romance / Suspense
Sinopse:
Maybell escreve três diários durante sua curta vida. Júlia, uma jovem recém liberta das garras do orfanato em que cresceu, encontra um dos três cadernos e, por trás de toda a história de Maybell descobre um casamento forçado, um assassinato, um romance, um mundo mágico e uma criança bastarda. Qual será toda a verdade por trás dessa história? Será que Julia conseguira desvendar o grande mistério antes do assassino encontrar um tesouro perdido e o caminho para uma terra encantada?
Censura: 12 anos.
Data de Início: 22 Setembro de 2007.
Lançamento do Titulo/Banner – 19/11/2007 – às 17h00.
Não perca o Epílogo que será lançado neste sábado (22/11) aqui nesta página e mergulhe de cabeça entre as palavras e frases de cada capítulo.
SUMÁRIO (COM LINKS PARA A PÁGINA ORIGINAL NO BLOG)
DEDICATÓRIA (22/11)
PERSONAGENS (22/11)
CAPÍTULO 01 - EPILOGO (22/11)
CAPÍTULO 02 – O ÊXODO (23/11)
CAPÍTULO 03 – A POUSADA BRANCA (28/11)
CAPÍTULO 04 – UM SONHO, UM CONVITE E UM CAVALO (10/12)
CAPÍTULO 05 – DE MENDIGO A MICHÊ (15/12)
CAPÍTULO 06 - O DIÁRIO (12/01)
DEDICATÓRIA.
Dedico às mulheres da minha vida, algumas estão por vir, outras permanecem, muitas passaram e deixaram marcas. Todas fincaram profundamente uma parcela da sua personalidade no meu coração, deixaram escritas cada palavra que coloco em prática. Deixaram para mim: Maybell.
PERSONAGENS.
Maybell: A personagem central. Toda a história envolve a vida de Maybell. Uma jovem de 20 anos, prometida a casar-se com Ricardo. Olhos Azuis e cabelos escuros, gosta muito de ler e escrever.
Ricardo: Noivo Prometido de Maybell. Forte e esguio, um dos mais desejados rapazes de toda a GreenWood.
Sophie: Prima de Maybell. Possui um gênio extremamente forte e não passa momento algum sem reclamar de como as coisas são fáceis para Maybell e não para ela.
Júlia: Protagonista da História. É ela quem vai a procura de sua família em GreenWood e tenta descobrir o que existe dentro de uma caixa misteriosa que ganhou de sua Professora Mafalda.
Mafalda: Diretora do orfanato Crianças do Sol. Foi ela quem cuidou e educou Júlia até ela se tornar adulta.
Fábio: jovem rapaz criado pelo pai. Muito misterioso e envolve-se numa amizade com Júlia
Leulália: a empregada da Pousada Branca. Uma personagem de grande papel na história. Vive a mais de 50 anos em GreenWood.
Fátima: Dona de um orfanato em GreenWood.
EPÍLOGO.
A garota estava ofegante. Correra o dia inteiro para poder guardar seus pertences antes que se perdessem pela casa. Estava tudo uma bagunça! Quanto tempo levara para arrumar os armários, varrer a casa e guardar todos os seus cadernos em lugares seguros? Ainda restavam vestígios dos lápis que usara logo cedo e pingos de tinta ainda sobravam pela mesa.
Azul. Amarelo. Rosa. Verde. Roxo. E mais diversas outras cores que usara para fazer um belo desenho para a contracapa do seu novo diário. Havia pintado um belo Castelo entre duas altas montanhas pontiagudas. O Gelo que escorria pelas têmporas amassadas do grande pedregulho. Quantos anos demoraram para crescer daquela forma? Quais os segredos que aquela grande montanha tinha por entre seus dedos? Tudo isso era segredo de Maybell.
Maybell. Dos seus cabelos escuros aos seus olhos claros, tudo que dizia a respeito de Maybell era puro e maravilhoso. Uma Jovem feliz, que gozava da mais pura saúde e alegria que jamais fora vista em outra jovem. Não poderia ter mais nada do que quisesse nesse mundo, pois fora a criança mais mimada de toda a cidade de GreenWood. Prometida para o mais belo moço entre todas as cidades próximas. Alto e esguio, Ricardo possuía os melhores dotes de um marido bem sucedido e rico.
Maybell ofegava. Não havia nada que entristecesse ou tirasse dos seus lábios o sorriso brilhante e infantil que tinha. Exceto nos momentos intermináveis que passava ao lado de sua prima gananciosa. Ninguém entendia porque Sophie tinha tanta angústia e tanto rancor em suas veias. Ela era má e não se importava com quem teria que lutar para alcançar os seus objetivos.
A Jovem ainda ofegava. Maybell colocara lentamente a cadeira no lugar. Estava aflita naquele momento. O sorriso que todos gostavam de ver, hoje estava apagado, entristecido. Passou levemente a mão pela barriga. Como pudera aceitar ser mãe de um bastardo? Essa era a pergunta de todos na cidade. Seria ela uma santa, para aceitar o filho de um covarde estuprador que a havia violentado 9 meses antes?
Com lágrimas nos olhos Maybell limpa a mesa respingada de tinta. Seus pais já não lhe erguiam os olhos. Sua avó já não queria mais contar-lhe as histórias de romance travadas com seu avô. Todos acabaram distanciando-se da menina por causa da criança. Sentia-se a escória, a filha do demônio, o lixo mais putrefato de toda a face da terra, mas fizera a escolha certa. Deixar seu filho viver, viver por um bom motivo.
Sai da casa e anda calmamente pela cidade, distanciando-se cada vez mais de todos que a fazem mal. Como queria que houvesse algo magnífico que a fizesse dar um salto único para seu palácio. Como queria poder ver, ao menos uma vez a macieira aonde passara tardes e tardes escrevendo seu belo diário. Ela continua pelo caminho, pensativa, chegando até a beira do lago de GreenWood. Curva-se lentamente para poder tocar a água.
Silêncio.
Ofegante, nos seus últimos suspiros. Ela lembra da montanha, lembra de seu amor perdido, lembra da Terra Encantada. Seu império como princesa estava terminando. Escuta vozes além e distantes. Um frio incessante. Falta-lhe o ar, os pulmões se contraem lentamente. O pânico envolve sua mente e ela não pode mais falar. Paralisada. Fecha os olhos, mas lembra dos diários e de toda a história: a verdadeira, por trás de todo o conto forjado.
O ÊXODO.
Júlia correu rapidamente para a fila de embarque, havia perdido o horário logo cedo. Ainda bem que suas malas estavam todas prontas e ao pé da escada, precisou somente tirar o pijama, pôr a roupa, a jaqueta e os tênis para poder sair pela rua ensopada pela chuva da madrugada. Despediu-se na noite anterior de todos os que viveram com ela durante seus 20 anos. O Orfanato Crianças do Sol fora sua única casa durante toda a vida. Foi lá que aprendeu a andar, falar, ler e escrever. Mafalda, a diretora, cuidara muito bem da menina e ajudou-a a economizar e criar uma pequena poupança para poder viver tranqüila quando saísse de lá. Os longos anos se passaram e, semanas atrás, Júlia foi chamada até a sala de Mafalda.
_Pode entrar – falou a diretora, trajada num longo vestido laranja com gola branca.
_Olá professora. Recebi seu recado e vim logo ver o que a senhora queria. – Falou Júlia ao entrar pela sala grande e aconchegante. A professora indicou uma poltrona próxima à lareira acessa e quente.
_Lily, minha garotinha! Vinte anos que cuido de você todos os dias e você sabe que tenho você como a minha filha. – a Professora deu um breve sorriso triste – acho que chegou a hora de entregar tudo o que tenho sobre você.
_ Sobre mim? Como assim professora? Não entendo o que a senhora diz.
_ Meu anjo, todas as crianças que completam vinte anos precisam seguir suas vidas. Você não pode mais morar aqui conosco. É por isso que vou entregar-lhe todas as suas economias – a professora pegou um cartão de crédito dentro de sua gaveta – aqui você tem o bastante para poder viver tranqüila durante mais ou menos um ano, não gaste tudo, pois ficarei muito preocupada com o seu bem estar.
_ Prof… – os olhos marejados de Júlia impediam que ela falasse alguma coisa. Sair do orfanato era algo praticamente impossível de acontecer a ela.
_ Tenho mais esse pacote para te entregar – ela entregou para Júlia uma caixa com uma grande rosa entalhada na madeira, havia um grande e pesado cadeado que fechava a fenda entre a tampa e a base.
_ De quem é essa caixa professora? – a menina pergunta atônita.
_ Veio com você na noite em que a encontramos na praça. Junto com as poucas peças de roupa que tinha, enrolado num belo cetim vermelho… Sim, é aquele que usamos como cortina para o seu quarto – falou a professora quando viu a cara de espanto de Júlia – pegamos tudo, decidimos guardar a caixa e entregar-lhe somente quanto tivesse entendimento.
_ Mas, professora, para onde eu irei? Não tenho casa e muito menos família! As únicas coisas que tenho são minhas roupas e uma caixa trancada! – Júlia já não sabia como fazer para conter as lágrimas que estavam prestes a escorrer pelos seus olhos.
_Júlia, uma coisa nunca lhe contamos. Além da caixa, junto com as coisas havia uma carta. No papel estava escrito apenas uma coisa: GreenWood. – a professora percebeu que o tom de mistério não saíra da forma como esperava, mas via no rosto da jovem uma expressão diferente, talvez de tristeza por ela nunca ter contado isso antes. – Lily, seu que deveria ter contado, mas não queria que você tivesse isso como único objetivo em sua vida. Eu queria que fosse mais do que uma órfã em busca de uma mãe ou um pai, queria que você fosse forte para enfrentar esse momento!
Naquela hora Júlia levantou-se e foi em direção a porta. Antes de fechar fez uma única pergunta. “E a Chave?”. A professora abaixou os olhos e balançou a cabeça, a jovem entendeu que não havia chave para abrir e descobrir o que havia escondido dentro.
A fila estava imensa, se ela tivesse chegado no horário certo já deveria estar sentada tranqüila. O embarque para Greenwood foi planejado meticulosamente durante a semana, não poderia haver nada de errado, nem mesmo um pequeno atraso iria fazer com que ela desistisse da idéia de descobrir o que estava escondido na caixa. Júlia tinha certeza de que encontraria a chave em algum lugar da cidade, talvez presa no colar de sua mãe, quem sabe na gaveta do seu pai ou até mesmo na pulseira de um doce jovenzinha que pudesse ser sua irmã (se é que ela tivesse uma irmã).
Embarque.
Depois de quinze minutos na fila e um sensor de metais que apitava em cada bolso de Júlia, finalmente sentou-se tranqüila na poltrona vinte e dois. Pegou seu MP3, colocou os fones no ouvido e fechou os olhos ao som de Damien Rice e Jack Jonhson. Como gostava de sentir-se a caminho de uma resposta para as suas dúvidas recentes, que logo seriam esquecidas no colo de um familiar que pudera vir a conhecer. Com os olhos ainda fechados, começou a sentir um transe tocar de leve seu corpo, em poucos minutos já estava dormindo.
O ônibus passou por grandes montanhas, cidades muito escuras e cidades muito luminosas, carros suntuosos e outros menos providos de decência. Horas a fio passaram-se até chegar em uma cidadezinha rural, ainda com casas antigas, com suas famílias tradicionais e quadradas. Júlia não percebeu, ainda dormia tranquilamente. Lentamente chegou no centro comercial, um pouco mais desenvolvido, exceto pelas pessoas que olhavam o transporte que, não tão freqüentemente, chegava à cidade. As crianças paravam para comentar, as moças riam entre si e os rapazes erguiam as cabeças para ver a bela pintura do ônibus que estava estacionando.
_Moça, chegamos – falou o motorista.
Júlia acordou assustada. Olhou para todos os lados no ônibus vazio, levantou-se e desceu rapidamente. A sensação de ter chegado foi um…
_Cuidado! – algo ou alguém esbarrou na jovem, fazendo-a derrubar as malas que se abriram e espalharam roupas e livros pela calçada.
_ Mas o que é isso? – Falou a menina.
_ Desculpe, posso te ajudar a levantar – um rapaz belo, de olhos azuis e cabelos estranhamente negros ergueu a mão para Júlia. Foi o rapaz mais belo e gentil que vira em toda a sua vida.
A POUSADA BRANCA
Júlia deixou que Fábio (um moço alto de cabelos louros, corpo forte e olhos ligeiramente claros num tom de azul ciano que lembrava as belas ondas da praia). Ela, atônita, não sabia o que falar ao rapaz, apenas deixou ser levantada e aos poucos os dois juntaram as roupas que haviam se espalhado pela calçada. As jovens que passavam por perto davam risinhos de desdém, como se aquilo fosse a coisa mais ridícula de se acontecer a uma pessoa. Porém, os dois jovens, imersos em um mundo totalmente paralelo olharam-se demoradamente em um silêncio sombrio, mas arrebatador.
_ Moça, você quer ajuda para levar essas malas para o seu destino? – Falou o rapaz.
_ Eu-que-ro-vo-cê… – murmurou Júlia tão baixo que nem uma mosca ouviria.
_ O que disse? – perguntou Fábio, franzindo levemente a testa e dando um leve sorriso de desentendimento.
_Eu disse que não precisa, acho que consigo encontrar sozinha… obrigada – “Burra” pensou a menina ao mesmo tempo que dispensava o rapaz.
_Tem certeza? Eu posso ajudá-la, pois as malas estão pesadas e essa que e está em suas mãos está um pouco capenga e é capaz dela estourar pelo caminho. Aonde vai conseguir alguém disposto a te ajudar novamente?
_ Tudo bem. Como é seu nome? – perguntou Júlia enquanto ela dividia o peso de uma das bolsas com Fábio.
Os dois continuaram pelo caminho até chegarem em um endereço que ela havia pego pela internet em um guia da cidade. A única pousada da cidade havia sido uma mansão há longos anos atrás, depois da morte repentina da filha do casal proprietário a casa foi leiloada e com o tempo ficou abandonada. Anos passaram e uma mulher estranha e muito bem vestida comprou-a e transformou todas as dependências em uma Pousada completa e decorada com os mais finos objetos antigos que ela pudera reunir.
Júlia e Fábio subiram pela longa ladeira que antecedia a mansão, os dois não falavam muito, talvez pelo cansaço ou pela situação estranha que os fizeram se conhecer. Uma mulher gorda e esbaforida vinha pelo caminho que levava dos portões de segurança até a entrada da pousada. Os peitos dela pulavam de um lado para o outro, o avental sujo caindo pela lateral e o pano de louça balançava de um lado para o outro na mão esquerda da criada. Ela parou, pegou as chaves e abriu o grande cadeado que unia a corrente de proteção.
_Olá filha! Você deve ser a Júlia, acertei? – falou colocando os pulmões para fora. – Venha dê-me sua mala. Há tanto tempo que não temos visitantes aqui! A temporada de férias está muito longe ainda e a casa fica muito vazia. Vamos!
Os três subiram pelo caminho, viraram pelo canteiro de rosas vermelhas brilhantes e muito bem cuidadas. Viram o galinheiro de onde saíam os ovos das refeições matinais e também toda a horta de onde vinham belas e suculentas verduras e legumes. Logo na frente da mansão havia um grande totem indígena com uma placa adornada com pequenos ladrilhos portugueses e, ao centro e escrito em letras douradas, o nome: A POUSADA BRANCA. Entraram pelo hall, grande e acolhedor com duas escadas laterais que levavam ao segundo e terceiro andar. Havia uma linda cúpula de vidro com anjos trabalhados no vitral em cores cintilantes que, com o pôr do sol, davam um belo aspecto divino e majestoso à peça.
_ Bom, aonde o casal prefere ficar? Temos vários quartos disponíveis. – indagou a criada.
_ Eh… desculpe, vou embora. Foi um prazer conhecê-la. Até mais – Fábio saiu vermelho pelo Hall da mansão, cruzou a porta e sumiu.
_Vocês não… – começou a criada.
_Nunca! Nem o conheço! E imagine só, um caipira de GreenWood? Não mesmo amiga! Tenho amor próprio! – Ela fez postura, levantou o queixo, pegou sua mala e foi à procura de um quarto.
Júlia demorou para encontrar um quarto com uma bela visão das montanhas e da cidade. O quarto tinha uma bela cama ao centro, uma escrivaninha, um grande guarda-roupa feito em uma madeira estranha e antiga, mas muito bem conservado. A penteadeira estava muito bem arrumada, com um kit de beleza finíssimo, perfumes e maquiagens que toda a mulher adoraria ter. A menina sentiu-se tão bem acomodada que deitou na cama e em poucos minutos fechou os olhos e adormeceu.
UM SONHO, UM CONVITE E UM CAVALO.
Ela corria intensamente. Seu peito balançava livre por debaixo da camisola branca e leve que estava usando. O corredor estava escuro e apenas as janelas possuíam um leve contorno devido à fraca iluminação da lua entre as nuvens que enchiam a noite fria. Algo lhe dizia que ainda era verão e o outono ainda não chegara, aquele clima era típico daquela época. Seu corpo estava estranho, diferente, mas não sabia o que era. Uma porta ao fundo do corredor chamou-lhe a atenção e, com as mãos finas e delicadas, encostou-se na madeira fria e empurrou com força e deparou-se com o jardim da Mansão. Foi até o pequeno chafariz e sentou-se na beirada olhando as grandes e lindas carpas nadando de um lado para outro. Viro-se lentamente e lá estava. Em pé, alto e muito bem vestido. “Eu estava te esperando” – falou com uma voz grave e apaixonante.
Júlia acordou. Seu coração batia tão rápido que não sabia se continuava deitada ou se levantava para ir até ao banheiro. O que acontecera nos últimos minutos, ou até mesmo horas, nunca lhe ocorrera antes. Parecia tão real que pensou em não acordar mais, pensou em saber o que aquele homem iria fazer e porque ele estava a sua espera, com uma voz tão linda e máscula. Afinal, a menina nunca estivera antes com outra pessoa, nem em beijos, nem em sonhos e muito menos de mãos dadas. Levantou-se.
“Ah! Júlia, vamos parar com essas idéias ridículas. Melhor sozinha do que com esses homens aproveitadores. A melhor companheira é você mesma” – pensou.
Foi até o banheiro. Lavou o rosto, escovou os dentes, trocou-se. Passou pelo quarto e olhou para as malas ainda feitas e perdeu a vontade de arrumar tudo no seu devido lugar. Afinal, estava pensando em passar uma longa temporada em GreenWood ou até mesmo viver com sua família quando a encontrar. Ainda pensativa a respeito do sonho, desceu as escadas em direção à cozinha. Leulália, a empregada, já havia posto a mesa para o café e arrumado metade do primeiro andar.
_Nossa menina, você dormiu e tanto hein? Minha santa virgem dos três pés raspados! Nunca vi uma criança que dormisse tanto! – riu Leulália.
_Eu estava realmente cansada, um trapo. A viajem foi longa demais e precisei de um belo descanso – respondeu Júlia.
_E você vai fazer o que hoje? – a empregada olhava sorrindo para a menina.
_ Não sei ainda, estou meio perdida por aqui? – deu um breve sorriso enquanto passava manteiga no pão.
_Bom, aquele rapaz passou por aqui hoje cedo. Perguntou a respeito de você e disse que qualquer problema você poderia encontrá-lo no Cavalo Velho. – a mulher colocou o suco de laranja no copo e serviu. – Seria interessante você fazer amizades, GreenWood tem coisas maravilhosas para se conhecer e encontrar coisas.
_Era justamente o que eu quero, encontrar! – as duas riram – Mas me fale, que Cavalo Velho é esse?
_Menina, essas coisas não se fala o que são, temos que ver. Posso te explicar o caminho, mas não tirar a surpresa que te aguarda. Mesmo que você não se impressione de início, mas vai aprender a apreciar.
Como são característicos esses contos das pessoas mais velhas. Todos eles vêm com histórias mirabolantes, ensinos de vida e coisas absurdas que deixam os jovens pasmos com o que ouvem e absortos na imaginação fértil e futilidade de criança que eles ainda têm. Deve ser essa a definição dada ao que os mais novos pensam dos idosos, não é descrença, mas sim uma sensação de “isto não é verdade” que faz cada um andar e sair rindo com os próprios pensamentos. Foi exatamente isso que Júlia pensou e exatamente isso que ela fez vinte minutos depois que desceu a escadaria da mansão pegou um pequeno pedaço de papel que a empregada havia deixado sobre a escrivaninha do Hall com uma breve frase “espero que não se perca” e dentro da dobradura estava um pequeno mapa com as coordenadas do “Cavalo Velho”. Afinal, que diabo é esse bendito cavalo? Um restaurante talvez?
Ela não havia percebido como a cidade tinha um aspecto diferente. Há principio teve uma bela visão de casas tradicionais, meninas puras com risinhos para todos os lados e rapazes bonitos desfilando pela calçada. Agora, já tinha outra visão. Não era uma cidade diferente das outras, tinha sim sua originalidade (é claro), as valetas estavam sujas, as pessoas andavam de um lado para o outro, poucas com celular na mão e muitas lendo o jornal, meninas paquerando meninos, os rapazes olhando furtivamente para as bundas que passavam e homens nojentos sentados nos bares cuspindo e até mesmo soltando gazes e arrotos descaradamente dando risadas bizarras. Se havia algo para surpreender, seriam essas coisas que chocariam qualquer um pelo caminho.
Leu o papel. Seguiu cada uma das instruções, descritas pela empregada, andando descontraída pela rua.
_OI! Júlia! – uma voz vinda da lateral.
_Quem…? – Julia virou-se e deparou com Fábio, alto e ainda bonito assim como no dia anterior.
_Eu passei hoje cedo lá na Mansão, pensei que você quisesse dar um passeio ou precisasse de ajuda em algo. Mas vi que descansou muito bem nesta noite, eu vim comprar uns pães. Afim de dar uma volta? – ele deu um sorriso largo.
_Bom… é… que… Que pena! Eu fiquei de ir conhecer o Cavalo Velho. Leulália me passou até o caminho certo para eu não errar, quero comprar algumas coisas lá – esquivou-se mas mesmo assim pensou consigo mesma “Júlia, sua anta! Pra que se fazer de difícil!?”.
_O que você acha que é o Cavalo Branco? – riu Fábio.
_Hm… um mercado ou um shopping… no ultimo caso um restaurante.
_ Não temos Shoppings em GreenWood. Os mercados ficam do lado contrário. E restaurante você não vai encontrar nenhum bom e que seja digno de beber nenhum copo d’água lá perto – ele continuou rindo.
_E cadê o lance de se surpreender? – Júlia fez uma cara de espanto.
_Bom, quem acredita nisso só são os mais velhos. Mas eu te levo até lá.
Os dois pegaram o caminho adiante. Júlia sentiu-se tranqüila de estar ao lado do colega. Foram juntos por ruas sinuosas e descidas íngremes e em menos de vinte minutos chegaram em um grande vão na cidade. Era uma praça enorme, ladeada por casas velhas, cortiços sujos, postes com luzes estouradas, em cada janela pilhas de roupas pendendo para secarem (Júlia pensou ter visto uma calcinha roxa desbotada voando entre uma janela e outra e por um instante riu por dentro). O gramado já não recebia os cuidados necessários e entre um banco e outro havia sacos de lixo e entre um lixo e outro um mendigo roncava alto fazendo um som nauseante junto com os carros e uma carroça que passava por perto. Júlia passou os olhos por toda a extensão e em um minuto teve essa sensação de surpresa (mas que não era satisfatória), procurava incessantemente um sinal do que seria o Cavalo Velho.
_Ali! – apontou Fábio – Bem ali no meio da praça, é aquilo que você procura?
Havia um circulo, uma espécie de chafariz, com uma estátua não muito grande, mas que se destacava dentre o canteiro mal cuidado. Ele tinha a cabeça baixa, com a crina sobre o pescoço. Ele era fúnebre, estranho e velho. Algumas lascas da pintura haviam caído e deixavam o animal com um aspecto de doença, como se ele tivesse sarna ou alguma outra parasita que comia sua carne. Era estranho, triste e feio.
_Está aí menina! O Cavalo Velho – falou Fábio em um tom sarcástico.
DE MENDIGO À MICHÊ.
Júlia envolveu-se em um mar de pensamentos. Estranhos. Porque perdera todo aquele tempo atrás de uma estátua? E ainda por cima sem um objetivo plausível pára isso? Chegou perto do pequeno chafariz e olhou ao fundo. Haviam algumas moedas de 1 centavo, mas muitas delas deviam ter sido levadas pelos mendigos que dormiam no meio do mato mal cuidado.
_ É a nascente do rio que corta a cidade. Ele começa aqui e, com a chegada da cidade foram canalizando cada centímetro até ele desbocar no rio St. Carlos. Um homem levava a sua caravana até encontrar um lugar em que ele pudesse ter água e comida à vontade. Quando chegou aqui, encontrou uma pequena valeta por onde saia água pura. Seu cavalo foi o primeiro a beber, era velho e estava muito doente. Ao terminar ele deu um alto e grave relincho de alegria. Todos ficaram felizes, montaram suas estadias e fundaram essa primeira ponta de GreenWood. Anos mais tarde começaram a canalizar o rio e sua fós virou essa escultura. Tudo o que termos ao nosso redor pertencem ao bairro do Cavalo Velho, um lugar que com o passar dos anos ficou escuro, sujo e ilícito por todos os seus aspectos sejam eles positivos ou negativos
Fábio falou de uma forma magistral, como se tivesse estudado anos e anos para poder explicar aquilo em um único momento de sua vida. A menina olhada atônita para tudo ao seu redor sem ao menos esboçar uma única palavra de aprovação ou desacordo. Estava surpresa: sim, estava. Mas não sabia saber se era pelo choque que recebeu ao ver que uma cidade tão interessante poderia ter uma negritude tão árdua. Andou com o rapaz pela rua mal pavimentada, pulando alguns buracos cheios de água e que poderiam ter uns profundos 40 cm. As pessoas olhavam para a “intrusa” que infiltrava por entre os mendigos suados e fedorentos.
_Oi belezinha, que tal uma bebida bem gostosa lá em casa? – falou um dos bêbados que estavam jogados na porta de um dos bares antigos. Fábio abraçou-a pela cintura, para que eles entendessem que ela estava À sua companhia.
O odor putrefato que saia dos bueiros enjoava a menina. A cada passo ela sentia a necessidade de cuspir ou de vomitar, mas sua educação não permitiu que fizesse isso. Respirou fundo e continuou a andar.
_Por que você me convidou a vir até aqui? Por que marcou de nos encontrarmos em um lugar tão estranho? – perguntou Júlia.
_ É aqui aonde eu moro – Respondeu Fábio – Quis que você conhecesse aonde eu moro para você entender, antes de tudo, quem eu sou.
_Bom, “mindingo” você não é! Bêbado muito menos! A não ser que você seja traficante só pode ser um michê! – Júlia fez uma cara de indagação ao mesmo tempo que afirmava.
_Não. Vou te mostrar o que eu faço.
Os dois desceram por uma rua estreita e escura. O Lixo transbordava pelos latões e respingos de água dos encanamentos que ligavam aos esgotos caiam pelos ombros dos dois. O nojo era incessante, mas o rapaz mantinha-se incompassível diante a toda aquela sujeita devido ao costume que adquirira durante toda uma vida se espremendo por esses lugares. Andaram até chegar em um casebre mal construído e que, pela aparecia, se batesse um vento fino poderia desabar com tudo que estivesse dentro.
_Entre Júlia. Quero mostrar uma das coisas mais belas que podemos fazer nesse lugar, algo incomparável e que pode nos dar a maior riqueza do mundo. – Fábio abriu a porta do casebre, que rangeu pelo corredor frio e mal iluminado.
Júlia entrou devagar, ainda com muito medo do que poderia vir à frente. Afinal de contas estava confiando em um rapaz que nunca vira na vida a e cuja procedência não era das mais confiáveis e amigáveis. Sentiu o cheiro doce de maças assadas e pequenos burburinhos vindos do fundo do corredor. Uma porta alta e uma luz aconchegante faziam um par belo e suntuoso. Os quadros marcavam cada passo e cada respirar da garota. Um sentimento leve começou a envolver-la. Chegou próximo à porta e Fábio cortou a frente para poder fazer as honras da casa.
_ Meninada! Trouxe para vocês conhecerem uma pessoa fabulosa! – Fábio de um sorriso belo – Júlia venha… poder vir .
Quinze crianças vieram ao seu encontro antes dela entrar pelo portal. Meninas com vestidos longos e com seus cabelos bem penteados. Os meninos arrumados com bonés virados para o lado e muito cheirosos, com seus olhos azuis, verdes e castanhos cada um envolveu a jovem num abraço apertado e gostoso. Riam por todos os lados e brincavam sem parar. Sentada na frente da lareira estava uma senhora, curvada sobre seu tricô e olhando por cima dos óculos com armação de metal. Sorria levemente e apresentava uma boca funda pela falta dos dentes, mas mesmo assim possuía uma beleza extraordinária, incontestável. Seus cabelos brancos e longos estavam presos em uma bela trança e usava um longo vestido xadrez preso com o avental pela cintura.
_Olá minha jovem, vejo que o meu querido menino trouxe você para nos conhecer. Bem vinda a minha casa – falou a velha – sente-se aqui, vocês chegaram bem na hora do chá.
Os dois sentaram-se. Fábio com um sorriso no rosto por ver todas aquelas crianças brincando e chamando-lhe a atenção para dividirem um carrinho ou coisa do tipo. Júlia olhava para a senhora sentada a sua frente, como ela poderia ser tão bela? Tudo o que vira até àquela hora, neste mesmo dia, pareciam tão distantes, praticamente um borrão na história, mas que permaneciam ali em algum lugar. Olhou para as crianças e para tudo a sua volta. O casebre já não parecia mais amedrontador, mas aconchegante e acolhedor.
_Fábio, por que essas crianças vivem aqui? Você mora aqui? – perguntou Júlia ao novo amigo.
_Não, eu não moro aqui – Fábio deu um leve sorriso – aqui é o lugar por qual eu luto. Um antigo orfanato que está há anos passando por necessidades. Cada uma dessas crianças vivia na rua e eu as trouxe para cá. Tia Fátima é quem cuida de cada uma delas e eu procuro ajuda pela cidade para trazer alimentos, roupas e tudo mais. É isso que eu vivo e é para isso que vivo também: para ajudá-las.
_Ele tem feito coisas maravilhosas – falou a Sr. Fátima, libertando uma voz doce e suave – desde pequeno vem me ajudando com muitas coisas e hoje vejo o homem que se tornou e tenho orgulho de ter ajudado seu pai a criá-lo. Antes tão frágil e hoje esse homem imbatível.
Ficaram mais um tempo conversando a respeito de Júlia e porque ela estava em GreenWood. Ela explicou a respeito de diversas coisas, mas não mencionou o fato de ter vivido em um orfanato também. Há alguns dias isso seria um orgulho, mas depois de ver o Bairro do Cavalho Velho sentiu-se tão péssima em tocar no assunto e tão frágil em falar sobre isso que acabou omitindo isso dos novos amigos. Passou uma tarde maravilhosa, um dia inesquecível relembrando de cada instante que viveu no Orfanato Crianças do Sol. Queria poder ajudar também, queria poder entrar pela batalha pelas crianças, mas primeiro teria que completar a sua própria missão, teria de encontrar a sua família.
O sol se escondeu por entre as montanhas altas e rochosas que ficavam ao lado da cidade. Aos poucos uma e outra estrela começaram a aparecer e os dois tomaram o caminho de volta para a Pousada Branca. Despediram-se das crianças, passaram novamente pelo caminho estreito, deram a volta pela escultura do cavalo e voltaram para as ruas movimentadas, limpas e iluminadas da cidade alta. Fábio levou Júlia até os portões principais da mansão, despediu-se.
_Pela manhã eu passo por aqui, se você estiver afim poderei mostrar para você o resto da cidade – Falou o rapaz.
_Talvez, eu estava pensando em primeiro me organizar amanhã. Se caso der certo poderemos continuar o passeio – respondeu Júlia, sua vontade de continuar conversando era imensa, mas a responsabilidade de traçar um objetivo na cidade era maior ainda.
_Tudo bem então, combinaremos amanhã – apertaram as mãos, deram um olhar amistoso e separaram-se, cada um para sua casa.
Como eram interessantes essas coisas de cidades distantes. Tantos mistérios e coisas mirabolantes. Foi o que Júlia pensou enquanto subia o caminho que levava até a porta do Hall. Subiu as escadas tranquilamente, cruzou a sala de estar e foi até a cozinha. Leulália estava lá, com a janta quente posta a mesa à espera da jovem.
_Pelo que vi o dia foi produtivo – falou a criada com um sorriso largo no rosto – venha, coma o macarrão especial que fiz para você. Fiz de sobremesa um belo sorvete de uva-passa.
Como Júlia gostava de uva-passa, o cheiro e o gosto faziam-lhe lembrar da infância alegre e movimentada que tivera no orfanato. Como queria voltar a ser criança, despreocupada com os problemas e alegre até no meio da mais pura tristeza.
O DÍÁRIO.
Júlia passou os demais dias pensando a respeito da caixa que recebera da professora Mafalda. Havia tentado todas as maneiras para abrir, mas foram por água abaixo. Não pesava muito, portanto ela havia chegado à conclusão de que haviam papeis, talvez fotos ou até mesmo cartas de sua mãe. Quando cansou da batalha com a caixa, largou-a em um canto do quarto junto com a pilha de roupas que estavam para lavar. Agora o que deixava a jovem aflita eram os sonhos estranhos a que vinha tendo durante as intermináveis noites de calor em GreenWood.
Cada noite um sonho, mesmo que breve, mas sempre com as mesmas coisas, os mesmos lugares e pessoas. Júlia achava incomum, mas mesmo assim, virava-se na cama e voltava a dormir. Nesta ultima vez ela corria pelo corredor do terceiro andar da mansão. Parava em uma porta e olhava para a escada que dava ao sótão. Quando ela cruzava o portal via flashs próximo ao Cavalo Velho, um rio e depois um grito frio. Acordou suada, respirando rápido e muito cansado. Levantou-se.
O mármore da escadaria que levava ao Hall estava gelado e refletia levemente o vitral da cúpula com pequenas estrelas e uma lua brilhante. Ouviu passos na cozinha.
_Olá – Falou a jovem enquanto cruzava a porta da cozinha e encontrou a dona da pousada. Uma mulher alta e magra, com seus cabelos escorridos e curtos muito bem tingidos de um vermelho vivo. Vestia um belo roupão de seda chinesa adornado com brilhantes na manga. Os olhos azuis e penetrantes fixaram-se em Júlia e um sorriso grande, daqueles que dividem gengivas e dentes com o enrugar da ponta do nariz.
_Olá Júlia. É esse mesmo seu nome não é mesmo!? – Júlia confirmou com um sorriso – Há tempo que eu queria te conhecer. No dia em que você chegou acabei precisando ir a uma viagem resolver alguns problemas, mas graças a Deus, já os resolvi – as duas riram – Está gostando da estadia? Precisa de alguma coisa?
_O lugar é ótimo, senhora… Senhora?
_Marie. Chamo-me Marie. Não precisa me chamar de Senhora.
_Marie, o lugar é ótimo. Tudo em perfeita ordem, não preciso de nada no momento. Estou a procura da minha família aqui na cidade, e quase todos os dias faço longas caminhadas por lugares que talvez os conheçam. Alias, não sei de nada a respeito da minha família, então meu amigo Fábio me ajuda com algumas coisas.
_Interessante. Leulália me falou de você, que foi criada em um orfanato. Enfim, estou cansada, para conversarmos com mais calma vou dormir e logo cedo nós poderemos dar um belo passeio pelo jardim, posso mostrar-lhe a minha estufa. Essas viagens são muito cansativas.
_Tudo bem Marie. Logo cedo sairemos então – Júlia sorriu para a dona da mansão. As duas cumprimentaram-se e a jovem ficou sozinha na cozinha comendo um pão Frances recheado com patê e bebendo um grande copo de leite frio. Ficou um bom tempo ali, sozinha e olhando para a janela em que se podiam ver as montanhas por onde o sol despontava pela manhã. Passou-lhe novamente pela cabeça os sonhos que tivera, levantou-se e foi até o hall. Olhou em volta e subiu lentamente até o terceiro andar.
O terceiro andar era o menos usado e, portanto, o que recebia menos atenção de limpeza. Possuía dois corredores que levavam aos cômodos que ficavam a direta da mansão e um que levava aos depósitos e ao sótão ficava à esquerda. Júlia andou lentamente até a porta do sótão e tocou a maçaneta fria.
Trancada.
Com o coração batendo forte e sem saber o porquê, a menina desceu rapidamente e, na cozinha, pegou o molho de chaves de Leulália. Cansada por subir correndo os três lances de escada e andar por todo o corredor até a porta do sótão. Tentou usar todas as chaves que pôde, mas apenas na penúltima chave ouviu o clique da porta se abrindo. Virou a maçaneta e empurrou a porta. Não sabia o motivo pelo qual fazia aquilo, mas queria de vez por todas entender o que queriam dizer os sonhos que tinha na mansão, em especial o desta noite. Subiu a escada de madeira que em cada passo rangia nas beiradas como fosse se partir.
Acendeu a Luz.
O sótão estava sujo, uma leve camada fina de poeira deslocou-se quando ela abriu a porta que rangeu brevemente. Era um cômodo grande e haviam várias coisas entulhadas por todos os cantos. Algumas cobertas com lençóis, outras apoiadas sobre a parede e muitas com teias abandonadas pelas suas antigas habitantes. Júlia olhou coisa por coisa, era estranho como o sonho a levara até um lugar sem nada para oferecer. Virou-se para sair e voltar para sua cama que, nessas horas, já devia ter voltado a ficar gelada. Foi quando viu preso a parede um quadro de uma moça com a pele levemente rosada, cabelos escuros e apoiados educadamente no ombro esquerdo, seus olhos claros e azuis fitavam Júlia e um belo sorriso mostrava que a adolescente vivera os melhores dias da sua vida quando aquela obra foi feita. Abaixo havia uma escrivaninha de mogno e, diferente de todas as outras coisas, ainda estava limpa. Abriu lentamente a gaveta e encontrou um velho livro com as páginas amareladas. Começou a ler a primeira página.
Diário de Maybell, “Que essa seja uma orelha por onde o poeta saiba se o amam ou se dele falam mal” Filha, amo-te de todas as formas. Sua mãe.
Ao terminar de ler isso, Júlia apoiou o diário sobre a mesa e foi bisbilhotar no restante de coisas que estavam na gaveta. Tirou uma escova de cabelos, um vidro de perfume, um lápis e ao fundo uma fotografia da mesma garota do quadro ao lado de um jovem alto e que, para Júlia, era familiar como se ele já estivesse presente em sua vida há algum tempo. Pegou o retrato e, olhando logo abaixo ficou atônita, a mesma rosa entalhada na caixa que recebera da Professora Mafalda estava lá, no mesmo tamanho e mesmo desenho. Sentou-se na poltrona que havia logo ali.
“Estranho, o mesmo desenho? O que isso significa!? Será uma insígnia da minha família? Venho procurar meu antepassado e me encontro bem aonde alguém da minha família nasceu. Ou… não… isso não pode ser…” Passou pela sua cabeça o fato de Maybell ser sua mãe. A menina deu um sorriso, pegou o diário a fotografia e foi para seu quarto. Dentro de dias foi a primeira vez que ela dormiu tranquilamente, estava feliz por ter encontrado a foto de sua mãe e de seu pai, em sua cabeça era por isso que conhecia o rapaz: ele era seu pai.
ENTRE ASPAS
“Olá,
Acho que não fui muito bem acostumada com as letras, mas papai me deu esse primeiro diário, para poder fazer histórias. Sim, ele sabe quando eu crescer quero ser contadora de histórias. Daquelas que fecham os olhos de deixam se envolver com mundos mágicos repletos de bruxas.
Maybell.”
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